domingo, 11 de outubro de 2026

Ideologia e bilateralismo

 No discurso político mediático ouvem-se frequentemente referências a que o partido A ou o movimento B “não são ideológicos” ou, o que a mim me deixa particularmente enraivecido, “não são de esquerda nem de direita.
Considero este discurso profundamente errado no plano das ideias, e perigoso no plano da tomada de decisão.


É corrente ouvir acusações de que tal posição “é ideológica”. Quem diz isso apresenta-se muitas vezes como “pragmático”, como vendo a realidade como ela é em vez de como alguém gostaria que ela fosse.
Ora, ideologia é uma visão do mundo. Toda a gente tem uma, não pode deixar de ter. É aquilo que nos permite analisar o que se passa à nossa volta, classificá-lo como bom ou mau. É ainda a nossa ideologia que nos orienta, também, nas decisões sobre o futuro. O perigo da expressão “não tenho ideologia” é que quem a diz adota a ideologia dominante e, ou não o sabe ou, o que é pior, o quer esconder. Uma pessoa sem ideologia é como um barco sem leme- vai para onde o vento o levar.


Este contraste entre ideologia e pragmatismo tem paralelo na imagem do “espetro político”, uma faixa (imaginária e, lá está!, ideológica) que se estende de um centro “moderado” para a esquerda e para a direita, cada uma com o seu extremo.
Porém, direita e esquerda não são um contínuo, são uma dicotomia. Recuando à origem do conceito na França revolucionária, é de esquerda quem defende o povo, é de direita quem está com os poderosos e opressores. Não ser de esquerda nem de direita significa não querer ver esta dicotomia. Ao, pretensamente, não tomar posição sobre as gritantes desigualdades do mundo moderno, tais pessoas estão de facto a tomar o lado dos opressores.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O exemplo de Rabo de Peixe

 
Nos acontecimentos de Rabo de Peixe vejo solidariedade, vejo união. Vejo uma comunidade enraivecida contra um sistema que há décadas os discrimina, que mantém as causas estruturais da sua pobreza. 

Um sistema que é invisível quando tantos são empurrados para o pesadelo das drogas, mas que está pronto para punir aqueles que não vêem outra saída que não seja o tráfico dessa mesma droga. 

Ouço saudar a polícia e invocar a lei. Não tenho dúvida que houve desrespeito da lei. Mas a criminalização das drogas é iníqua, mais ainda na versão portuguesa, feita para safar os filhos dos “meus senhores”, que consomem, enquanto trama os filhos dos “outros”, que lhes vendem o produto. 

Tudo enquadrado num sistema de justiça com dois pesos e duas medidas, um para os ricos e outro para os pobrezinhos. 

As pedras atiradas às viaturas da polícia são o gesto de revolta de uma comunidade que ainda sabe que a defesa contra a injustiça e a exploração está na entreajuda e na solidariedade. 

Aprendamos com os bravos de Rabo de Peixe. Nunca é tarde. 

terça-feira, 14 de julho de 2026

O parlamentarismo como anestesia política

A minha primeira impressão dos discursos de encerramento do recente Congresso do LIVRE, particularmente a parte a cargo do Jorge Pinto, foi a de infantilidade. 

O novo porta-voz do L apresentou uma visão cor-de-rosa para o futuro do país se as pessoas votassem no partido: creches gratuitas, escolas que estimulam o espírito crítico dos estudantes, lares para todos os idosos, painéis solares em todos os telhados, tudo apoiado numa economia que, baseada na investigação nacional, criaria uma reindustrialização verde, empregando muitas pessoas com bons salários e ainda aumentando as receitas do Estado. Ah, e a regionalização!

Pareceu-me infantil, ingénuo, afirmar que jorraria leite e mel de um governo de coligação onde o L participasse. 

Depois percebi que esta visão não era infantil, era perigosa! Era uma forma de anestesia política, castradora de ações que pudessem (essas sim!) resolver os problemas nacionais. 

E percebi isso quando me lembrei de uma anedota que ouvi há muitos anos. 

Uma mulher diz ao marido que os filhos não conseguem dormir porque estão com fome. O marido pede-lhe que lhe traga um dos miúdos. Senta-o ao colo e começa a fazer-lhe perguntas sobre comida. Vão falando sobre como seria bom comer uma sopinha de legumes com carne e feijão, como é saboroso um bacalhau com todos, bem regado com azeite e vinagre, e que tal um bifinho de vaca com muitas batatas fritas e um ovinho estrelado, a gema a escorrer… A criança vai ficando hipnotizada com a voz do pai e acaba por adormecer. 

Diz o pai: - “Maria, traz o próximo que este já jantou! “

Esqueçamos por agora que há umas décadas isto era considerado engraçado. E nem vou referir o contexto racista subjacente a esta “anedota”

O ponto é que o problema das crianças - terem fome - não está a ser resolvido. Em vez de alimentar as crianças, ou de lhes explicar porque não há comida e traçar um plano para a obter, o pai está a anestesiá-las sobre as causas do seu problema e com isso a roubar-lhes a capacidade de agir. 

A analogia com o discurso do LIVRE é esta. Pensem bem: alguém acredita que um governo de coligação PS-L (uma possibilidade que Rui Tavares apresentou numa sua entrevista) implementaria uma regionalização que o próprio PS se recusou a fazer nas múltiplas oportunidades que teve? 

No contexto neoliberal que domina a política global, europeia e por arrasto a portuguesa, acham realista que um governo de coligação com o LIVRE invista numa rede de creches e lares de terceira idade? 

E é preciso não saber mesmo nada sobre capitalismo para sequer imaginar que poderíamos ter em Portugal uma indústria avançada, verde, e com salários acima da média.

Ao apresentar esta visão cor-de-rosa do efeito do voto no LIVRE, o partido está a anestesiar os seus votantes. Está a roubar-lhes agência, a mantê-los com fome. 

domingo, 1 de março de 2026

O euro é a nossa desgraça!

Quando em 1944, no complexo turístico de Bretton Woods, os EUA impuseram o dólar como moeda global, sabiam que estavam a criar uma ferramenta de domínio planetário. De facto, é por ainda hoje o dólar ser a base da economia mundial que os EUA podem impor sanções económicas a tantos países. Se a moeda universal fosse o bancor, como propôs Keynes, o sistema financeiro dos EUA seria apenas mais um entre tantos, e fechar os bancos americanos a um país seria para este apenas uma pequena inconveniência, e não a sentença de morte para milhões de cidadãos como é hoje.

A criação do euro teve a mesma base- a elite neoliberal europeia precisava de um instrumento de coerção sobre os países, particularmente os do sul. Só assim podia impor as suas políticas de austeridade, só assim podia forçar a privatização dos setores estratégicos nacionais, umas e outra destinadas a permitir a acumulação crescente de capital nas mãos da oligarquia. O controlo da moeda é o mecanismo que possibilita a implementação das políticas neoliberais.

O que se passa agora com a SATA ilustra bem o processo.

Os neoliberais não permitem que o Estado apoie uma empresa que presta um serviço público essencial. Num espantoso atentado à soberania e à autonomia regional, a UE “autorizou” o Governo Regional a injetar dinheiro na SATA, com a condição de que a companhia fosse desmantelada e vendida às peças. 

Não interessa que a integração vertical (transporte + handling) faça sentido económico. Não interessa que a posse pública de uma companhia aérea seja essencial numa região ultraperiférica e com uma enorme diáspora

O que interessa é enfraquecer o Estado e a Autonomia, e maximizar a transferência de dinheiro dos trabalhadores (os que pagam os bilhetes) para os banqueiros e os especuladores.

O serviço de transporte aéreo vai ficar mais caro e de pior qualidade. É provável até que, a curto prazo, a SATA colapse, os aviões sejam vendidos, e os açorianos fiquem sujeitos às tarifas predadoras de uma qualquer low-cost. Mas até lá os Atlantic Connect Groups desta vida, mais os bancos que as manipulam, vão ganhar muitos milhões, saídos dos bolsos das pessoas comuns.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Vergonha! Vergonha!

Israel, responsável pelo genocídio em curso na Palestina e liderado por um criminoso de guerra procurado pela justiça internacional, e os EUA, que possibilitam esse genocídio, atacaram um país soberano, em desrespeito das normas básicas do direito internacional.

Em resposta, o Governo de Portugal emite um comunicado que não tem uma única palavra de condenação ao ataque. Uma única!

Mas avança com uma menção da Carta das Nações Unidas, não para condenar o ataque mas para requerer o fim do “programa nuclear do Irão”. E, perante esta clara violação dos direitos humanos, tem o desplante de ignorar o próprio ataque que está a comentar, e insiste (termo usado) que seja o Irão a respeitá-los.

Finalmente o Governo português tem o desplante de condenar como “injustificável” a resposta militar de um país atacado pela maior potência militar do planeta, omitindo que ela se dirige às múltiplas bases militares com que os EUA rodearam o Irão.

Já se espera tudo de um governo que se tornou cúmplice desta guerra, pelo silêncio sobre a utilização da Base das Lajes. Mas dá vergonha!

Fonte: Al Jazeera