domingo, 11 de outubro de 2026

Ideologia e bilateralismo

 No discurso político mediático ouvem-se frequentemente referências a que o partido A ou o movimento B “não são ideológicos” ou, o que a mim me deixa particularmente enraivecido, “não são de esquerda nem de direita.
Considero este discurso profundamente errado no plano das ideias, e perigoso no plano da tomada de decisão.


É corrente ouvir acusações de que tal posição “é ideológica”. Quem diz isso apresenta-se muitas vezes como “pragmático”, como vendo a realidade como ela é em vez de como alguém gostaria que ela fosse.
Ora, ideologia é uma visão do mundo. Toda a gente tem uma, não pode deixar de ter. É aquilo que nos permite analisar o que se passa à nossa volta, classificá-lo como bom ou mau. É ainda a nossa ideologia que nos orienta, também, nas decisões sobre o futuro. O perigo da expressão “não tenho ideologia” é que quem a diz adota a ideologia dominante e, ou não o sabe ou, o que é pior, o quer esconder. Uma pessoa sem ideologia é como um barco sem leme- vai para onde o vento o levar.


Este contraste entre ideologia e pragmatismo tem paralelo na imagem do “espetro político”, uma faixa (imaginária e, lá está!, ideológica) que se estende de um centro “moderado” para a esquerda e para a direita, cada uma com o seu extremo.
Porém, direita e esquerda não são um contínuo, são uma dicotomia. Recuando à origem do conceito na França revolucionária, é de esquerda quem defende o povo, é de direita quem está com os poderosos e opressores. Não ser de esquerda nem de direita significa não querer ver esta dicotomia. Ao, pretensamente, não tomar posição sobre as gritantes desigualdades do mundo moderno, tais pessoas estão de facto a tomar o lado dos opressores.