terça-feira, 14 de julho de 2026

O parlamentarismo como anestesia política

A minha primeira impressão dos discursos de encerramento do recente Congresso do LIVRE, particularmente a parte a cargo do Jorge Pinto, foi a de infantilidade. 

O novo porta-voz do L apresentou uma visão cor-de-rosa para o futuro do país se as pessoas votassem no partido: creches gratuitas, escolas que estimulam o espírito crítico dos estudantes, lares para todos os idosos, painéis solares em todos os telhados, tudo apoiado numa economia que, baseada na investigação nacional, criaria uma reindustrialização verde, empregando muitas pessoas com bons salários e ainda aumentando as receitas do Estado. Ah, e a regionalização!

Pareceu-me infantil, ingénuo, afirmar que jorraria leite e mel de um governo de coligação onde o L participasse. 

Depois percebi que esta visão não era infantil, era perigosa! Era uma forma de anestesia política, castradora de ações que pudessem (essas sim!) resolver os problemas nacionais. 

E percebi isso quando me lembrei de uma anedota que ouvi há muitos anos. 

Uma mulher diz ao marido que os filhos não conseguem dormir porque estão com fome. O marido pede-lhe que lhe traga um dos miúdos. Senta-o ao colo e começa a fazer-lhe perguntas sobre comida. Vão falando sobre como seria bom comer uma sopinha de legumes com carne e feijão, como é saboroso um bacalhau com todos, bem regado com azeite e vinagre, e que tal um bifinho de vaca com muitas batatas fritas e um ovinho estrelado, a gema a escorrer… A criança vai ficando hipnotizada com a voz do pai e acaba por adormecer. 

Diz o pai: - “Maria, traz o próximo que este já jantou! “

Esqueçamos por agora que há umas décadas isto era considerado engraçado. E nem vou referir o contexto racista subjacente a esta “anedota”

O ponto é que o problema das crianças - terem fome - não está a ser resolvido. Em vez de alimentar as crianças, ou de lhes explicar porque não há comida e traçar um plano para a obter, o pai está a anestesiá-las sobre as causas do seu problema e com isso a roubar-lhes a capacidade de agir. 

A analogia com o discurso do LIVRE é esta. Pensem bem: alguém acredita que um governo de coligação PS-L (uma possibilidade que Rui Tavares apresentou numa sua entrevista) implementaria uma regionalização que o próprio PS se recusou a fazer nas múltiplas oportunidades que teve? 

No contexto neoliberal que domina a política global, europeia e por arrasto a portuguesa, acham realista que um governo de coligação com o LIVRE invista numa rede de creches e lares de terceira idade? 

E é preciso não saber mesmo nada sobre capitalismo para sequer imaginar que poderíamos ter em Portugal uma indústria avançada, verde, e com salários acima da média.

Ao apresentar esta visão cor-de-rosa do efeito do voto no LIVRE, o partido está a anestesiar os seus votantes. Está a roubar-lhes agência, a mantê-los com fome.