segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Lutas pela habitação- o contexto geral





1. A culpa é do capitalismo


Vivemos num sistema capitalista global. Na própria definição de capitalismo encontramos a primeira forma de desinformação (mais daqui a pouco): não tem a ver com mercados, e seguramente nada com liberdade. A verdadeira definição de capitalismo resume-se a duas características:

(1) a concentração do poder numa elite privilegiada, que detém os meios de produção, a qual explora a grande maioria da população que, despojada, é obrigada a vender o seu trabalho para sobreviver.

(2) a produção é orientada para o aumento do capital, para o lucro, independentemente do custo para a sociedade e para o ambiente.

Todos os grandes problemas atuais derivam destas características do capitalismo. A procura do lucro a qualquer custo resulta, desde logo, na destruição ecológica, do clima à biodiversidade. Mas também se faz sentir no plano social. O capitalismo promove o desemprego, o qual é essencial para disciplinar pelo medo os trabalhadores, ao mesmo tempo que reduz os seus salários. Finalmente, apenas é produzido aquilo que dá lucro, em detrimento daquilo que é necessário. Por isso se constróem apartamentos de luxo e não habitações acessíveis, por isso se promovem veículos individuais e não os transportes públicos, por isso temos hipers e não mercearias de bairro.

2, O capitalismo está em crise

Nas últimas décadas acabaram os recursos fáceis. Já não há colónias, e o neocolonialismo que as substitui mostra os seus limites. No plano material, ultrapassámos já o pico do petróleo barato, o que se manifesta nas guerras que o Império Branco (os EUA e seus aliados) está a travar em todo o mundo. Também estão a acabar os depósitos mais ricos dos recursos minerais essenciais (como o cobre, as terras raras, mesmo o ferro e o alumínio), tornando a respetiva mineração tão cara que se torna inviável economicamente.

Isto significa que o crescimento do capital deixou de poder ser feito pela produção material e é agora procurado na financeirização. Daí o crescimento absurdo do mercado de capitais, onde dinheiro gera mais dinheiro numa bolha de dimensões colossais.

Mas esta financeirização não vive só dos truques bolsistas, ela precisa de algumas bases materiais- e procura-as no nosso sangue, naquilo que até à pouco eram áreas de serviço público. Foi assim que se privatizaram as auto-estradas, os correios, as comunicações, os combustíveis, a eletricidade, os transportes e se prepara a privatização da educação, da saúde e da segurança social. A fúria destrutiva do capitalismo virou-se assim contra os cidadãos do coração do imperialismo, até há pouco tempo relativamente protegidos.

3. A descida para o fascismo

Para que um sistemta tão manifestamente aberrante se possa manter, os donos disto tudo têm que criar uma narrativa e um enorme aparelho de propaganda para a espalhar. Convém também manter como “almofada social” um conjunto de pessoas que sejam relativamente privilegiadas, a dita classe média. A estas interessa aceitar o que lhes é dado, sem criar ondas, enquanto o poder convence o resto das pessoas, ainda a grande maioria, que, se trabalharem muito, ou se estudarem, ou se forem empreendedoras, poderão ascender socialmente.

O problema para os capitalistas é que manter esta estrutura colide com a lógica de aumento incessante do lucro, sobretudo nesta fase de financeirização e de exploração doméstica. Resultado: a crise que agora vivemos.

Pessoas que trabalham a tempo inteiro e não têm dinheiro para levar uma vida digna. O contrato social mais básico quebrou-se: vender o seu trabalho já não é suficiente para viver. Uma estatística, apenas: 19% dos portugueses são pobres ou estão em risco de pobreza. Essa percentagem seria de 40% se não fossem os apoios sociais. Pensem nisto um momento: dois em cada dez portugueses são pobres ou em risco de o ser- e muitos têm um emprego! E outros dois desses dez estariam na mesma situação se não fossem os apoios do Estado que o capitalismo tanto vilifica.

Outro problema para os capitalistas: nestas circunstâncias a propaganda falha e as pessoas acordam. É óbvio que o problema não é delas- trabalham, estudam, até são empreendedoras, mas o sistema mesmo assim mastiga-as e cospe-as fora.

E então saem à rua. Protestam contra a falta de habitação. Ou contra os baixos salários. Ou contra a falta de cuidados de saúde. É tudo a mesma luta.

O que resta ao capital, para assegurar que os lucros continuam a crescer? A violência.

É isso o fascismo, na sua essência: o recurso à violência para defender o capitalismo do protesto popular. É aqui que estamos.

4, A bifurcação

Aqui chegados, há dois caminhos.

O primeiro é fácil mas leva à consolidação do fascimo. Passa por nos deixarmos dividir. Em partidos políticos. No ódio contra os outros, os emigrantes, os drogados, os esquerdalhas, os cheganos. Pobres contra pobres, enquanto os poderosos se riem.

O segundo caminho leva ao socialismo, mas requer muitos sacrifícios, muitas vezes da própria vida! A receita é simples: a união. Nós somos mais do que eles. MUITO mais! E eles dependem de nós. Se não trabalharmos, se não pagarmos, os capitalistas entram em pânico. As ilusões que tínhamos já desapareceram- eles vão ser violentos. A nós cabe-nos resistir e manter-nos unidos. Criar cooperativas de consumo para furar os circuitos da grande distribuição. Criar cooperativas de produção, desde a pesca e a agricultura até à indústria e aos serviços- produzir o que é necessário e não aquilo que dá lucro aos patrões. E, claro, 

Vamos ter que lutar contra os partidos políticos, contra o governo. Mas estaremos a lutar pelo futuro dos nossos filhos, numa sociedade fraterna e num ambiente são.

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